sábado, 16 de outubro de 2010

De quem anda e sonha

Num olhar que se vai
Pra entreter a mirada
Num sentimento que o campo atrai
Pra estender a potrada
Que segue ao tranco e se vai

Amada me espera com o mate cevado
Que eu venho costeando um redomão
Com o coração apertado
Trazendo dois terneiros pra nossa criação
Por sobre as garra entonado

E que toco por diante meus sonhos
Nas precisões de andejar
No meu andejo e por ser domero
Ando, sonho, faço tropa
Buscando teu olhar
Só peço ao campo um tarumã por rancho
E um canto pra desencilhar

Pra quem sabe costear a esperança
Do campo que não floresce
A despacito sigo pra estância
Por saber que os sonhos não envelhecem
Pra quem não teme a distancia

Trago olhos cansados buscando o rancherio
Mirando uma tapera que me entristece
Pra chegar as casa inda falta cruzar o rio
Porque o mundo e bem maior do que parece
Nesse agosto de chuva e frio                                                                         

Quando a chuva chora

La na várzea um potro relincha
Quando o céu se fez lobuno
Da seiva pura que escorre
se derrama na quincha
Lava o campo e a alma
Que vai amansando a vida
Na brisa mansa que acalma

A garça envolta no seu pala branco
Segue solita na espera que a cerca
Sobre a imensidão do santo campo
Que se alegra quando a chuva
em lagrimas encharca a terra

Quando topei com rodeio parado
No fundo de campo na lentidão das horas
Fui domando meus anseios na lida
pra buscar guarida a chuva chora
e uma saudade por certo esquecida

assim que moldei minha estampa
A pata de cavalo minha pampa
Um pedaço de céu por regalo
Recuerdos de guri correndo pelo banhado
Gritando com o gado num reponte de rodeio
Trazendo a sorte mal costeada
E a vida nas pernas do freio

A flor se abriu a chuva partiu
Deixando bem mais
que terra encharcada
Renovou as aguadas
E a esperança do pampa
Trouxe junto um sorriso
De um amanhecer bonito
e o ceu moldando sua estampa

Aos olhos claros do sol
Apagou o rastro do tempo
e espantou suas ânsias
ao tranquito arrebol
no lombo do vento
foi encurtando as distancias

Tempo, tropa e estrada

Quando reponta a barra do dia
A tropa ganha a estrada
Se a palavra silencia
E os olhos não buscam outro olhar
Levo a vida do jeito que ela encilha
Pois que anda jamais pode parar

Toco por diante o baio
Empurrando nos encontro a gadaria
Que o tempo ganhou olhos de maio
Percorrendo a sesmarias
Quatro dias de marcha, três ronda e a tropa se finda
Junto aos peçuelos trago léguas de saudade
E sorrisos ainda
Razões de ser e simplicidade
De tempo e estrada
Tocando por diante a gadaria
Reculutando sonhos
No lombo da potrada

Vou na culatra assoviando
Coplas ao vento de contraponto ao tempo
Que passa devagar
Ate o gado xucro virou sinuelo
Tudo pampa, mesma marca mesmo pelo
E dia certo pra entregar

Botei um vistaço no varzedo
Pra manear seus segredos
de campo e saudade
Que descobri nas minhas verdades
perfume e carinhos de la flor
que vinha campeando no caminho
Por a muito andar sozinho meus sonhos e amor

A dalva mostrava o caminho
rumo a charqueada
Na humildade e jeito de ser
Moldaram a noite enluarada
Que me fez tempo, tropa e estrada
Em mais uma ronda pra depois amanhecer 


O tropa ia mermando quase chegando ao lugar
cada légua que se vai mas se entende porque a volta
se a voz da alma se solta e um rancho pra quem voltar
O tempo enxuga as lágrimas
Da tropa vida e o sustento
A estrada e o fundamento 
Pra quem aprendeu a não chorar









Um lugar ao sul

Quando me dei de conta
num rancho cá no povoado
Sofrenei minhas ânsias
por não acreditar no destino
Que vinha me tenteando
a volta por ser desgarrado
Porque a vida por
matreira me fez teatino
Quando afrouxei as garra do pingo
Já de lombo cansado

Trouxe bota, bombacha
Um sonho encilhado
Um resto de tropa
Tenteando razões de ser
com o meu existir acolherado
Um dia por certo acho um lugar
Solto o zaino no campo aberto
E costeio uma nova potrada pra encilhar

Um rancho sombra de um arvoredo, boa aguada
Uma linda pra dividir meus segredos
Pasto bueno pra alimentar a manada
Um jardim florido, mangueira de pedra moura
 
Sou parte do campo
Com alma presa na terra
Fiz dos meus sonhos seus encantos
Pra um quarto de lua que encerra
Pra o vento levar meu canto
Do potreiro ao corredor
Pra chegar as casa
Numa estrada de pedra e flor

Pra um mate gordo bem cevado
No aboio do gado
Que e sinuelo em volta das casa
das vaca de leite e os de canga
Mas adiante nasce o açude
Pois e onde morre a sanga
Vi pelos olhos dos meus sonhos
Que um dia volto pra laPra minha querência
Onde se faz razão a minha existência
Onde e o meu lugar














           

Puro pelo

Autoriza o palanqueiro soou a campana
Levou os ferro e num relance de um laçasso
Se foi ao cogote do potro numa pegada pra cima
Viu o mundo trocar de ponta
Ao bombear por sobre as clinas
Neste medonho atropelo
A vida vai presa a um tento
Pra quem munta no puro pelo

A coragem e um sentimento
Que sobra, quando um ventena se atora
Segue no mesmo choro
Não frouxa as pua
Porque não acredita na sorte
Se o diabo costeia as macega
Tenteado a morte
Deus amadrinha a vida
Porque a fé de um campeiro
E bem mais forte

Nas botas de garrão de potro
Que vão costeando o tempo
Sinuelo pra tantos outros
Que tem a vida nas esporas, mango e um tento
Do xucrismo entreverado
Um destino aporreado
Que pega na volta e coiceia
Trás um coração palanqueado
E fibra numa rodada
Quando a coisa se enfeia

Ao toque da campana
Se esconde o toso ou pega na volta
Um grito se solta
Querendo também ginetear
Golpes e mangaços pelo ar
Baios, tordilhos, colorados
Ventenas do lombo inchado
Marcados na paleta
Bordados a no de espora
Cicatrizes das rosetas
Quando o meu mundo se atora

sábado, 9 de outubro de 2010

Romance do picaço maleva

Quem e de lida e campo
Sabe que às vezes a volta se enfeia
Pua, mango e maneia
E o que me toca
Pra acomodar um beiçudo
Que por devalde agarra nojo do mundo
Mas matungo de freio
Nas garra de um campeiro
Não se aporrea mos arreio

Bota na forma o sem costeio
E me deixa embuçalado
O picaço que amanheceu
Mal acomodado e desordeiro

Ia, há, há já bateu a cachorrada
Já pra trás prendi o grito o capataz
E o picaço dando coice nas macegas
Traz o sangue maleva nas veias
Da mãe aporreada ventre do qual foi parido
A pouco chegou na estância
ja por outros tantos bolido

Hoje e teu dia não gosto de judiaria
Mais vai te cortar nas minhas pua
Pois venho mal costeado
E rodeado de pragas de chiruas
Joguei os caco no lombo do maula
Pulei pra riba e prendi o grito só por desaforo
Bombiei pro varzedo e aticei os cachorro

Quando levei os ferro
Mal livrou a cancela já escondeu o toso
E foi coiceando nas barrigueira
Querendo me sacar pelas esporas
Mas se enredou na soitera
E assim no más se fomo
No mesmo choro a campo fora

Seguimo costeando o varzedo
O maula querendo botar meu caquedo fora
foi quando numa bolcada
me falta um pe do estrivo
e uma redea que se atora na presilha
mas nao e atoa que nesse mundo eu vivo
botei o mango nas oreia
fiemei os garfo e acabei com anarquia

e neste pampa o solo sagrado
Quando um ventena se atora
Se engancha nas esporas
De um campeiro domador
E volta pras casa num tranco de pisa-flor
Marcado dos arreio
Pedindo benção pro relho
E seguindo o enleio deste domador.                 


                                                                  Rodrigo Santana Rio Pardo janeiro 2010

De queixo atado

Bota na mangueira a potrada
E faz um costeio
Ensina como se forma
Faz tempo que aquele mouro eu tenteio
Se criou solto na invernada
As clinas nunca viram toso
Mas rondando eu te amanunseio

Manso de baixo puxo da boca
Meus recaus te boto no lombo
Não tenho medo de tombo
Já tenho a idéia louca

Bocal, rédea comprida
Mango, espora e rabicho
Pra quem conhece essa lida
Pra despacha
No primeiro galope
Os cusco eu atiço

Pra domar de rédea
Tem que ter paciência
Pra ensinar um cavalo tenencia
Não basta encher de pau
Não e pra menos que domar
E uma ciência
E a formula e o bocal

De queixo atado
Ensino na lida
Apartando boi
No fundo de uma invernada
Porque de rebeldia
Nos dois temos um tanto
Mas na doma tradicional
Se faz cavalo no campo

De toda lida campeira
Pra aparta na mangueira
De patas firmes no chão
Vou te ensinar meu enleio
Que eu quero apartar rodeio
Com o pala na mão.

De quem vem da terra

Pra quem ouve os lamentos da terra
Tem alma pura não erra
Sabe de onde vem o pão
Consegue escutar seu coração
E vai alem do que palavras podem falar
E os olhos possam ver

Sabe apreciar o florescer do campo
Quando a primavera vem chegando ao tranco
Pechando o inverno
Pra um sonho eterno
Por de baixo de um pala branco

Ele de novo vai parar rodeio
Vai atracar bem no meio
Para de novo a esperança rebrotar
E a terra quem sabe vai enxugar seu pranto
E parar de chorar

Deste jeito rude
No campo onde o gado berra
Por trás da quietude
Silhueta de quem vem da terra
Ali na taipa do açude
Um novo amanhecer
Que enche os olhos da gente
O que fica e semente
De tudo que agente sente
Só se levanta quem cai
Pois quem sabe de onde vem
Sabe pra onde vai

Tropeando lonjuras buscando sonhos
Pra manter a alma pura
Esses filhos da querência
Que tem a vida na terra
Pra não perder a essência
do jeito que a vida cerca
                                                                                       Rodrigo Santana Guaíba junho 2010